apresentação

O Projeto NEGRITOS. IMPRENSA NEGRA NO RECIFE E EM SALVADOR é um desejo antigo e coletivo. Remonta à escuta permanente de dois ensinamentos vindos do continente africano: o primeiro, oriundo do seguinte provérbio: “até que os leões contem suas histórias, os contos sobre a caça glorificarão os caçadores.” O outro, presente no livro “Amkoullel, o menino fula”, do escritor malinês Amadou Hampâté Bâ. O sábio nos alerta que a “cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima”.

Sim, o Negritos é um projeto de memória, de comunicação, de educação e de resistência. É um projeto para fortalecer a memória negra que construiu o Brasil. É parte do nosso desejo de contar nossas histórias e de registrar as vozes daquelas e daqueles que chegaram antes de nós.

O projeto disponibiliza em formato digital a coleção de cinco jornais pernambucanos, a saber: Angola, Negritude, Negração, Djumbay e Omnira, também um periódico soteropolitano, o Jornal do MNU. O período coberto estende-se de 1981 a 2002.

O acervo digital abriga entrevistas com guardiões da memória, pessoas que participaram da produção dos periódicos e/ou fizeram a sua guarda para que os mesmos chegassem até aqui.

Na intenção de cumprir um papel educativo, a exemplo do que fizeram os jornais contemplados pelo Negritos, o site traz algumas indicações de leitura sobre a imprensa negra e uma pequena coleção de imagens selecionadas dos jornais. Partimos do entendimento de que forma é conteúdo, conteúdo é forma.

Assim, o objetivo maior do Negritos é registrar as memórias de pessoas e grupos que se organizaram para produzir meios de comunicação que abordassem questões diretamente ligadas à comunidade negra. Atividades promovidas pelas organizações, como festas, palestras, lançamento de livros, exposições diversas; posicionamentos políticos acerca de diferentes questões da conjuntura política abrangente; África; difusão de literatos; indicação de leituras e produção de textos formativos, foram pontos em comum nos seis periódicos analisados.
É bonito de ver a quantidade e qualidade dos textos sobre o que nominávamos no início da década de 1980 como necessidade de revisitar a real presença do negro na História do Brasil. Revolta dos Malês, Revolta da Chibata, quilombos, imprensa negra, candomblé, mulher negra, personalidades negras... Conteúdos variados e de qualidade inequívoca que expressam uma interpretação do mundo na perspectiva das organizações negras em foco, pontificando a certeza de que nossas histórias precisavam ser contadas por nós, sobre nós e para todos.

A comunicação se fazia como meio para encontrar novas parcerias, divulgar ações, difundir pensamentos, posicionamentos, e para fortalecer a formação política. Ou seja, uma educomunicação, como sintetizou Mônica Oliveira em entrevista ao Negritos. Ali éramos formados e formávamos pessoas. Desse modo, a resistência negra ao racismo e todas as formas de opressão era registrada e realizada por meio de jornais. O projeto Negritos é parte dessa história.

A disponibilização de cinco jornais pernambucanos e um soteropolitano, em versão digital, oferta ao público a possibilidade de manter vivas importantes memórias negras e reafirma a certeza de que as letras são espaços significativos de combate ao racismo.

Além das/dos guardiões da memória que gentilmente cederam seus acervos para digitalização, suas lembranças e dxs tantxs colaboradorxs, o Negritos recebeu o apoio fundamental do Itaú Cultural por meio do Programa Rumos. A todxs, nossos sinceros agradecimentos.

Desejamos às pessoas que lêem e consultam o projeto Negritos, boa leitura, aprendizados múltiplos e ampla difusão.