sobre o acervo

NEGRITOS: pesquisa e acervo

As décadas de 1980 e 1990 foram bastante férteis para a imprensa negra brasileira. A rearticulação das organizações negras durante o incipiente processo de democratizaçãodo país impulsionou uma retomada pujante dos meios de comunicação negros. Jornais e revistas começaram a circular ecoando nos quatros cantos do Brasil e do mundo a existência do racismo, as resistências negras e as riquezas das civilizações africanas e afro-diaspóricas. Recife e Salvador integraram esse cenário e editaram seus jornais.

Além de ter acesso a jornais de fora do Recife, quando da participação em eventos do Movimento Negro (MN) e recepção de periódicos confiados por amigos e militantes, pude acompanhar de perto, na condição de leitora, as primeiras iniciativas da imprensa negra contemporânea no Recife, refiro-meàs colunas de Jorge Morais e Edvaldo Ramos no jornal Diario da Noite e ao jornal Angola, editado pela dupla.

Foi nessa conjuntura que, juntamente com as companheiras Alzenide Simões (Leu) e Márcia Diniz, propus para o Movimento Negro Unificado/Pernambuco (MNU-PE), a produção de um jornal, o Negritude. Esse trio foi reforçado pela participação das companheiras Olívia Pessoa, Mônica Oliveira e Vilma de Deus. Com pequenas alterações, essa equipe foi responsável pela construção do Negração, jornal do Afoxé Alafin Oyó. Também colaboramos com o Omnira, jornal do Grupo de Mulheres do MNU-PE, que teve a comissão de imprensa formada por Alzenide Simões (Leu), Vilma de Deus e Cristina Vital. Além dessas mulheres na idealização e edição dos jornais, muitas outras colaboravam com produção de textos, foi o caso de Inaldete Pinheiro de Andrade, Maria Rosário Trindade, Maria das Neves Maranhão, Adelaide Lima e tantas outras. Essa composição sinaliza a atuação das mulheres no movimento negro pernambucano, inclusive no campo da produção e circulação de ideias. As mulheres eram predominantes, não exclusivas! Companheiros com José Alves (Zeca), Marcelo Pedrosa, Cirilo Mota, Lindivaldo Júnior, Josafá Mota e muitos outros deram suas contribuições para os jornais. Quanto ao jornal Djumbay, o conselho editorial teve maior equilíbrio entre os gêneros. Considerando as edições analisadas, quatorze pessoas, em momentos distintos, compuseram o conselho editorial do Djumbay: sete homens (Gilson Pereira, Lepê Correia, Daniel Silva, Edmundo Ribeiro, Nivaldo Sant’Anna, Tony Azevedo, Edson Silva) e sete mulheres (Verônica Gomes, Rosilene Rodrigues, Glaucia Maria, Cláudia Regina, Ana Maria Gomes, Irismar Silva, Iaracir Silva).

O Jornal do MNU, até o número 11, era creditado a uma comissão de imprensa que não informava os nomes dos componentes. A partir do número 16, as seções do MNU nos estados de São Paulo (São Paulo e Campinas), Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Goiás e Bahia (Juazeiro) assinam como comissão nacional de imprensa e ou conselho editorial.  A partir do número 16, cada seção indica um nome, que atuam em momentos distintos. São eles: Edson Cardoso, Iris Silva, Ivana Leal, João Marcos Braz, Jônatas Conceição da Silva, Josafá Mota, Reinaldo Pereira, Geraldo Júnior, Julio C. Oliveira, Miriam Caetano, Jurema Batista, Luiz Alberto, Haroldo Antonio, Milton Barbosa, Júlio Camisolão, Maria de Lourdes. Ao nomear, percebemos que diferente de Pernambuco, no Jornal do MNU a presença masculina foi superior à feminina nas comissões responsáveis pelo jornal. Cabe aqui uma homenagem ao colega Jônatas Conceição da Silva, que desde o primeiro número esteve à frente do Jornal do MNU, sendo o grande responsável pela guarda desse periódico.

Conhecer esse universo e sua importância foi determinante para projetar sua preservação. Assim surgiu o projeto Negritos. O recorte espacial restrito a Recife e Salvador, inicialmente, decorre da convivência com tais periódicos (atuei no MNU-PE por muito tempo) e da ciência dos poucos investimentos  na pesquisa da imprensa negra nordestina. Nesse sentido, os projetos de digitalização da imprensa negra paulista foram estímulos fundamentais.

O recorte temporal, de 1981 a 2002, correspondente ao período de circulação dos jornais acessados. Tendo em vista o material já reunido no acervo, parece-me que novas aquisições resultarão em poucas alterações no marco temporal.

Pessoas vinculadas aos periódicos, seja como editoras ou leitoras, são as grandes depositárias desses jornais, que em alguns casos estavam em processo avançado de deterioração. Assim, posso dizer que iniciei a pesquisa tendo sob minha guarda cerca de 85% do conjunto pernambucano que hoje forma o Negritos.

Para completar a coletânea atual do Jornal do MNU, foi indispensável a colaboração de pessoas como Ana Célia da Silva e Maria Luiza Passos, e de Inaldete Pinheiro, Mônica Oliveira e o Arquivo Público de Olinda para rematar o conjunto dos jornais pernambucanos, inclusive versões digitais cedidas por Yasmin Alves e André Bezerra.

Além da identificação e coleta, a pesquisa compreendeu o restauro, o fichamento, digitalização e disponibilização no atual site. Nesse caminhar, contei com a colaboração de excelentes profissionais.

Para ampliar o acesso ao universo desses jornais, coletei depoimentos de guardiões da memória no sentido de registrar suas lembranças em audiovisual. No total foram seis depoimentos concedidos por: Ana Célia da Silva, Inaldete Pinheiro de Andrade, Alzenide Simões, Mônica Oliveira, Gilson Pereira, e por mim, Martha Rosa. Também conversei com Yasmin Alves, uma jovem que almeja colocar o Negração, jornal do Afoxé Alafin Oyó, novamente em circulação.

Foram momentos de muita emoção. Cada trecho dos depoimentos nos levava a cenas de intensa mobilização do Movimento Negro nas cidades de Recife e Salvador no período 1981 a 2002 e a reflexões sobre os processos criativos que resultaram em cada edição do jornal. Trazia de volta o cenário do Recife e de Salvador nas décadas de 1980 e 1990, as questões vivenciadas pelas organizações para fazer circular suas ideias de maneira impressa. As barreiras eram muitas, mas nada comparado com a crença na força daquelas palavras. Aquelas ideias precisavam ganhar o mundo! Assim foi formado o conjunto de quarenta e sete edições de jornais pernambucanos e vinte e duas edições de um jornal soteropolitano, conforme quadro abaixo:

PERNAMBUCO

PERIÓDICO PERÍODO Nº DE EDIÇÕES DIGITALIZADAS
ANGOLA 1981 a 1989 06
NEGRITUDE 1986 a 2002 13
NEGRAÇAO 1988 a 1991 04
DJUMBAY 1991 a 1997 19
OMNIRA 1993 a 1994 05

 

BAHIA

PERIÓDICO PERÍODO Nº DE EDIÇÕES DIGITALIZADAS
NÊGO (Boletim da seção baiana do MNU) 1981 a 1986 11
NÊGO (Jornal Nacional do MNU) 1987 a 1988 04
JORNAL DO MNU 1989 a 1996 07

 

No conjunto, o Jornal do MNU encontrava-se em pior situação de conservação. Os pernambucanos estavam em boas condições, salvo alguns poucos que precisaram de restauro. Os jornais foram restaurados, sendo os que não faziam parte da minha coleção, devolvidos para as tutoras.

Diante dessa primeira etapa do projeto Negritos, temos plena ciência de sua incompletude. A pesquisa me levou a outros jornais nas duas cidades e em outras partes do Nordeste. Portanto, a pesquisa prossegue e o site tem muito a abrigar. O mesmo vale para os depoimentos, existem outras vozes a registrar. As indicações de leituras e as imagens são só pílulas para estimular ainda mais a pesquisa, que espero ver multiplicada dia após dia.

Venha com a gente. Acompanhe o Negritos nas redes sociais e faça parte deste movimento de registro das memórias negras.

 

 

Martha Rosa Figueira Queiroz
Coordenadora do Projeto Negritos. Imprensa Negra no Recife e Salvador
Profa. Adjunta do Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB
Coordenadora ARÒYÉ. Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão Educação para as Relações Étnico-raciais, Educação Patrimonial e Ensino de História